O cenário econômico atual apresenta um verdadeiro dilema para os investidores, especialmente aqueles que têm apostado em ativos norte-americanos. Desde a posse de Donald Trump como presidente dos EUA, as incertezas no mercado financeiro aumentaram. Apesar de algumas recuperações, muitos se questionam se esse é um fenômeno passageiro ou se representa uma mudança estrutural nas alocações de ativos.
As bolsas norte-americanas viveram um período de alta, impulsionadas pela expectativa de negociações comerciais promissoras. No entanto, a preocupação com a sustentabilidade dessa alta continua. Com o índice S&P 500 amargando uma queda de cerca de 8% e o dólar derrubando cerca de 9% nos primeiros 100 dias da nova administração, a sensação de insegurança entre investidores se intensificou.
Liz Ann Sonders, da Charles Schwab, expressou a inquietação que permeia os mercados. A dúvida se a atual administração causou danos irreversíveis para a economia dos EUA faz com que muitos investidores busquem alternativas. O desafio de manter a confiança em um cenário de volatilidade e incerteza está levando a uma análise mais cautelosa sobre onde alocar recursos.
A Diversificação de Ativos em Tempos de Incerteza
A volatilidade não é uma novidade para aqueles que acompanham os mercados financeiros, mas a magnitude das flutuações recentes é alarmante. Alguns investidores estão diversificando suas carteiras, buscando segurança em ativos internacionais. Esta estratégia, muitas vezes vista como prudente, implica em uma reavaliação crítica do peso que ativos norte-americanos ocupam nas carteiras de investimento.
Outras vozes, como a de Kenneth Griffin, da Citadel, enfatizam a importância de proteger a marca Estados Unidos no cenário econômico global. A falha em fazê-lo poderia resultar em danos irreparáveis ao status do dólar como moeda de reserva. Nesse contexto, o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, ressaltou que a administração Trump está firme em sua intenção de fortalecer a economia e, por consequência, o poder do dólar.
Um Cenário de Realocação de Ativos
Recentemente, estrategistas têm notado um movimento de realocação de ativos que sugere que os investidores estão se afastando do dólar. Jens Nordvig, da Exante Data, menciona que essa mudança pode indicar uma busca por moedas de reserva alternativas, o que poderia moderar a hegemonia do dólar no longo prazo.
Uma reavaliação das reservas cambiais globais é um indicativo dessa tendência. O Fundo Monetário Internacional (FMI) relatou que a participação do dólar nas reservas cambiais caiu para 57,80%, em comparação com 66% há dez anos. Essa mudança se relaciona diretamente à preocupação crescente com a instabilidade política e econômica na América do Norte.
Os Efeitos das Críticas ao Federal Reserve
As críticas direcionadas ao Federal Reserve, especialmente ao seu presidente, Jerome Powell, também contribuíram para a incerteza no mercado. A independência do Fed é uma questão sensível que gera desconfiança entre os investidores, que temem que a incerteza política possa abrir caminho para uma instabilidade ainda maior.
O impacto das ações do governo sobre os Treasuries, que são fundamentais para o sistema financeiro, é um alerta para possíveis vendas massivas de ativos. As vendas já foram observadas, e o interesse dos bancos centrais em diversificar suas reservas pode acelerar se a tensão geopolítica continuar.
Por outro lado, evidências de desdolarização ainda estão em fase inicial. Os investidores buscam mudanças significativas na distribuição das reservas em moedas e optam por movimentar seus ativos para regiões mais seguras. Essas decisões são frequentemente influenciadas pelo desempenho de outros ativos, como o ouro, que neste momento tem visto um aumento considerável de interesse.
Spencer Hakimian, da Tolou Capital Management, decidiu aumentar a alocação em ouro e diminuir a exposição a Treasuries. A crença é que a confiança em ativos de refúgio denominados em dólar está se dissipando, o que reflete uma mudança perceptível nas expectativas dos investidores sobre o futuro econômico.
Expectativas para o Futuro Imediato
De acordo com a pesquisa de estratégia de portfólio do Goldman Sachs, os investidores estrangeiros iniciaram vendas significativas de ações norte-americanas, o que pode indicar uma transição em curso nas preferências de investimento. Um levantamento similar no Barclays reafirmou essa tendência, embora ambos concordem que isso não necessariamente determina uma reversão da hegemonia norte-americana no curto prazo.
Para muitos especialistas, a expectativa é de que, apesar de um cenário incerto, a magnitude e a liquidez dos mercados dos EUA continuarão a atrair investimentos, limitando a busca por alternativas. A história americana de crescimento e inovação, juntamente com uma base forte de ativos, adiciona um componente resiliente à economia.
Reações do Mercado e a Resiliência do Dólar
A resposta do mercado a esse contexto é crucial. Se as condições globais se deteriorarem, o dólar pode ainda ser visto como um porto seguro. Tara Hariharan, da NWI Management, argumenta que, apesar das dificuldades atuais, a estrutura econômica e as políticas dos EUA continuarão a garantir a sua atratividade como destino de investimento. As decisões de ajuste feitas pelos investidores ao longo deste ano podem ser reflexivas de uma avaliação mais cautelosa, mas não necessariamente indicativas de um desinteresse duradouro.
Ainda há muitos fatores que entram na equação, e o desfecho dessa história ainda está longe de ser escrito. A realidade é que, em meio à incerteza, muitos investidores se veem forçados a reconsiderar suas posições, e isso pode ter impactos duradouros.

