Uma simples mudança na forma como a ciência e os profissionais da saúde pensam sobre obesidade poderia ajudar a tratar milhões de pessoas ao redor do mundo. Pelo menos é esse o argumento de uma equipe internacional de cientistas, que defende a criação de uma nova categoria de “obesidade pré-clínica” que vá além do simples cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é o acúmulo excessivo de gordura corporal que pode representar uma ameaça à saúde.
O distúrbio é normalmente diagnosticado com o cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal), uma medida criada no século 19, que é calculada a partir do peso e da altura de um indivíduo. Um número entre 18,5 e 24,9 é considerado saudável. Entre 25 e 29,99, a categoria é “sobrepeso”. Acima de 30, a pessoa é classificada como obesa.
O excesso de gordura corporal pode prejudicar o funcionamento de órgãos, como o fígado e o pâncreas, além de aumentar o risco de doenças como câncer e distúrbios cardíacos. Porém, a ciência tem provado que essa definição pode ser simplista, já que a obesidade é uma doença mais complexa do que apenas um “excesso de gordura”. Além disso, o IMC, por mais que seja prático e fácil, não é a melhor forma de avaliar quem está acima ou abaixo do peso ideal.
O IMC não mostra se o peso “em excesso” é composto por gordura, músculo ou massa óssea. Mesmo técnicas mais precisas, como a medida da cintura ou até exames de imagem, não são categóricas, pois os níveis de gordura corporal sozinhos não definem a saúde de alguém. Cada pessoa reage de forma diferente à gordura, levando em conta sua idade, hábitos alimentares, genética e muitos outros fatores.
É por causa dessas limitações que uma comissão internacional de cientistas, liderada por Francesco Rubino no King’s College de Londres, propôs trazer mais nuances para o diagnóstico de obesidade, considerando 18 sintomas relacionados ao peso e dividindo a doença em casos clínicos e pré-clínicos.
As sugestões, apoiadas por 76 organizações médicas ao redor do mundo e baseadas em estudos recentes na área, foram publicadas no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology.
Obesidade Clínica vs Pré-Clínica
A ideia dos pesquisadores é que tanto a obesidade clínica quanto a pré-clínica seriam caracterizadas por gordura corporal excessiva, mas com nuances distintas.
Nessa nova definição, apenas a forma “clínica” incluiria os 18 sintomas causados pelo excesso de gordura, como problemas respiratórios e dificuldades em realizar atividades cotidianas. A obesidade “pré-clínica” designaria um estado em que o excesso de peso representa um risco futuro de desenvolver sintomas relacionados à obesidade, mas, no presente, não há alteração na função dos órgãos.
As novas definições propostas para o diagnóstico de obesidade são semelhantes à caracterização da diabetes. Quando alguém tem níveis elevados de açúcar no sangue, mas não altos o suficiente para ser classificado como diabetes tipo 2, essa pessoa é considerada pré-diabética.
O documento propõe que os profissionais da saúde realizem a medição dos níveis de gordura corporal usando exames de raio-X, além do cálculo tradicional do IMC (um número acima de 40 continuaria sendo considerado como obesidade).
Após o raio-X, um exame de sangue seria feito para analisar a saúde dos órgãos, além de uma consulta para avaliar se o paciente apresenta sintomas. Isso possibilitará um diagnóstico mais específico e tratamentos mais eficazes.
Com as novas diretrizes de diagnóstico, pessoas com obesidade pré-clínica – que têm um excesso de gordura corporal, mas sem as famosas “comorbidades” – podem apenas precisar monitorar sua saúde, observando possíveis sintomas decorrentes da obesidade e trabalhando em mudanças de estilo de vida. O foco principal deve estar na prevenção, e não no tratamento.
Já os pacientes com obesidade clínica precisariam considerar formas de tratamento mais diretas, como uso de medicamentos ou até cirurgias. A perda de peso não é o único foco, mas sim a melhora da qualidade de vida e o funcionamento dos órgãos da pessoa.
A divisão da obesidade em duas categorias ajuda na triagem de casos e torna o tratamento mais eficaz para cada indivíduo. Trazer mais nuances para o diagnóstico da obesidade é também uma maneira de combater o estigma em torno dessa condição, retratando-a como uma doença complexa e multifatorial.
Novo Paradigma na Abordagem da Obesidade
A proposta de uma nova abordagem para a obesidade abre portas para discussões mais amplas sobre o cuidado com a saúde. Essa mudança de paradigma pode levar a um entendimento mais profundo do que significa estar saudável, além da mera consideração do peso.
Ao segmentar a obesidade em categorias, os profissionais de saúde têm a oportunidade de personalizar tratamentos e intervenções, levando em conta a individualidade de cada paciente. Isso pode ser particularmente útil em um mundo onde a desinformação e os estigmas relacionados ao peso ainda são comuns.
Além disso, a nova classificação pode incentivar as pessoas a procurarem ajuda antes que sua condição se agrave, permitindo intervenções precoces que ajudam a prevenir problemas de saúde mais significativos. Também é uma forma de incentivar diálogos mais abertos e menos judicativos sobre a saúde e o corpo, favorecendo o bem-estar psicológico e emocional dos indivíduos.
A ideia é que, ao entenderem melhor sua saúde, as pessoas sejam capazes de tomar decisões informadas e sustentáveis sobre seu estilo de vida. Isso inclui não apenas questões alimentares, mas também fatores ligados à atividade física, saúde mental e bem-estar social.
Conforme essa nova abordagem se dissemina, espera-se que os avanços na pesquisa e na prática clínica continuem a moldar a maneira como a obesidade é entendida e tratada, oferecendo esperança para milhões em todo o mundo que lutam com os desafios dessa condição.
Além de reformular estratégias de diagnósticos e tratamentos, é vital que a educação e a conscientização sobre a obesidade e suas implicações sejam amplificadas. As campanhas educacionais devem focar em hábitos de vida saudáveis e na promoção de um ambiente que apoie escolhas de saúde positivas, combatendo, assim, não apenas a obesidade, mas uma série de doenças crônicas associadas à condição.
Um passo fundamental é desmistificar a obesidade, apresentando-a como um problema de saúde pública que não pode ser simplesmente atribuído a escolhas pessoais. É crucial que a sociedade como um todo reconheça os fatores estruturais que contribuem para a obesidade, como a disponibilidade de alimentos saudáveis, a insegurança alimentar e o acesso a espaços para a prática de atividades físicas. Abrir o debate sobre estes pontos pode levar a políticas de saúde pública mais eficazes e abrangentes.
Com essa nova abordagem, espera-se que a saúde pública se torne mais inclusiva e que a luta contra a obesidade ganhe um novo ímpeto, focando na prevenção e no cuidado integral dos indivíduos, contribuindo para um futuro mais saudável e equilibrado.

