Zé Takahashi
Airon Martin apresentou o Verão 2026 da Misci nesta quinta-feira (24)
Coisas do Brasil: a obra Tieta do Agreste, de Jorge Amado, foi publicada em 1977 e ganhou as telas na forma de novela em 1989. Essa mulher que é expulsa de casa e volta triunfante à cidade em que ficou difamada, fixou-se no imaginário popular na figura da atriz Beth Faria, que a interpretou no folhetim global. Foi um sucesso retumbante.
Airon Martin recorre à personalidade destemida e forte, autêntica e pouco convencional dessa Tieta para o desfile da Misci que apresentou na quinta-feira (24) na Bienal, em São Paulo. E, a partir dela, faz diversos paralelos: com modernidade X tradição, tolerância religiosa X moralidade, preservação X progresso. Mas, sobretudo, faz moda.
A nova coleção da Misci
Tieta 2026
Quem seria Tieta hoje em dia? Essa questionamento moveu Airon Martin ao criar o desfile do verão 2026. Baseado na imagem formada a partir da personagem interpretada por Betty Faria, a proposta é um mergulho nas atitudes de coragem da protagonista, refletindo sobre como essa figura inspira uma comunidade que luta para manter intacto seu território natural face ao assédio do progresso econômico. A Tieta contemporânea se veste de maneira autêntica, usando símbolos de força como amarras, tiras e fivelas, além de incorporar a liberdade através de recortes que mostram a pele.
Formas e texturas
As formas arredondadas e estruturadas estão presentes em vestidos, paletós, camisas e calças. Os recortes e a leveza no caminhar conferem ao desfile uma atmosfera descontraída, mesmo nas peças mais sóbrias. A Misci se destaca por sua pesquisa contínua em materiais inovadores e sustentáveis. Nesta coleção, utiliza-se o fio de látex amazônico, presente em bordados e amarrações, ao lado da inovadora “pelle verde”, que aproveita folhas e caules de plantas.
Estampas e cores
A palette da coleção mescla tons terrosos, como marrom e cáqui, com cores pastéis (amarelo, rosa e azul). O vermelho vibrante não fica de fora, trazendo vida às peças. Dessa forma, a estampa chamada Mangue Seco, criada pelo artista Elian Almeida, destaca-se como uma interpretação contemporânea da personagem Tieta. Nos calçados, botas e escarpins em tons off white e texturas que lembram o couro de pirarucu foram elaborados em colaboração com a designer Paula Torres.
Astros e estrelas
Airon Martin contou com a presença icônica de Betty Faria, que marcou a entrada final do desfile. Celebridades de diferentes estilos também compareceram para prestigiar a nova coleção, como Seu Jorge, Sasha Meneghel, Luciana Gimenez, Roberta Miranda, Sérgio Marone e Bianca Exótica, tornando o evento ainda mais memorável.
A coleção do verão 2026 da Misci não apenas homenageia uma figura emblemática da cultura brasileira, mas também provoca reflexões sobre questões atuais e relevantes, fazendo um convite à moda conectada à essência do ser humano.
As influências de Tieta na moda contemporânea
A obra Tieta do Agreste transcende as páginas do livro e a telinha da novela, irrompendo como um ícone de força feminina. O que faz com que a imagem de Tieta permaneça viva na memória popular? Sua luta por justiça e a busca por seu espaço em uma sociedade que a marginalizou falam com ressonância até hoje. No desfile da Misci, a essência de Tieta é trazida à tona, questionando como a moda pode ser um veículo de liberdade e autoafirmação.
As roupas não apenas adornam, mas contam histórias e trazem um discurso. Neste contexto, o trabalho de Airon Martin reafirma que a moda vai além do que se vê: é uma forma de expressão que pode abordar temas de grande relevância social e cultural, respeitando o passado ao mesmo tempo que se insere no presente.
Os desfiles têm o poder de provocar e inspirar, e Martin faz isso de maneira magistral. Ao lado de Tieta, ele desenha uma nova narrativa que provoca o público a repensar o que significa ser mulher na contemporaneidade. Tal abordagem possibilita uma reflexão sobre valores, comportamentos e as mudanças necessárias na sociedade atual.
Em um mundo marcado por desafios, a coragem e a autenticidade de Tieta ressoam, fazendo da nova coleção da Misci um marco na moda brasileira. A conexão entre o passado e o presente se torna uma ponte essencial na construção de identidades e na promoção de diálogos necessários.
A coleção Verão 2026 da Misci pode ser vista não apenas como uma nova linha de roupas, mas como uma declaração de intencionalidade e um convite à reflexão sobre o papel da moda em tempos de mudanças.

