Um iPad encontrado no leito do rio Tâmisa, em Londres (Reino Unido), revelou informações que ajudaram a condenar um trio de criminosos pela tentativa de assassinato de um dos envolvidos no maior roubo da história do país.
Além do atentado, os três homens condenados — Louis Ahearne, Stewart Ahearne e Daniel Kelly — também roubaram um museu e assaltaram um condomínio.
Quais foram os crimes cometidos?
Kelly e os irmãos Ahearne planejaram um atentado contra Paul Allen. Allen é um ex-lutador que participou do maior roubo da história do Reino Unido, quando ele e outros bandidos fortemente armados levaram cerca de 54 milhões de libras de uma empresa de segurança. Por este crime, ele ficou preso até 2016.
Em julho de 2019, o trio de criminosos disparou seis vezes contra Allen, quando ele estava em sua casa, próxima a Londres. Um dos tiros acertou sua coluna, deixando-o paraplégico.
O atentado não é o único crime na ficha dos três bandidos. Um mês antes, em junho de 2019, eles roubaram peças de porcelana de um museu em Genebra, na Suíça, avaliadas em 2,76 milhões de libras. No dia anterior aos disparos contra Allen, o trio assaltou um condomínio fechado.
O roubo do museu, inclusive, foi o motivo da prisão do trio, que tentou vender as peças, chamando a atenção das autoridades. Durante a investigação destes crimes, a polícia encontrou indícios de que eles haviam participado do ataque a Allen, mas uma pista ajudou a amarrar todas as partes e condenar o grupo.
Como o iPad ajudou na investigação?
Em outubro de 2024, Louis Ahearne apresentou sua defesa. Um detalhe intrigou os investigadores: o acusado contou que o trio fez uma parada próximo ao rio Tâmisa, e que esperava que imagens de câmeras mostrassem que ele estava “pegando ar fresco” enquanto Daniel Kelly desaparecia próximo ao rio.
Sabendo desta informação, os investigadores resolveram vasculhar o leito do rio, na área próxima à margem. Foi aí que eles descobriram o iPad. O item foi uma surpresa. Um dos detetives confessou que esperava encontrar uma arma, não um tablet.
O aparelho ainda estava com um chip de operadora. O registro de ligações mostrou que Kelly e os irmãos Ahearne se comunicavam regularmente. A linha também estava vinculada a aparelhos de GPS, usados para rastrear o carro de Paul Allen.
Além disso, o tablet tinha contas de email ligadas a Kelly. Nelas, a polícia achou compras de celulares sem registro em lojas online. Os aparelhos foram usados para arquitetar o crime.
Segundo a BBC, a descoberta do iPad surpreendeu Kelly, que ficou sabendo desta informação pouco antes do julgamento começar. Imagens da prisão mostram o criminoso enfurecido contra seu antigo parceiro: “E aí, como está a vida de informante?”, Kelly gritou.
Apesar disso, ainda não se sabe qual foi a motivação do crime. Os procuradores do caso descreveram Paul Allen como um bandido de carreira, enquanto os irmãos Ahearne e Daniel Kelly faziam parte de uma organização criminosa. Uma das hipóteses é que o crime tenha sido resultado de uma disputa envolvendo grupos rivais.
As investigações vão continuar. “Este é um daqueles casos que você continua procurando e continua encontrando”, afirmou o detetive Matthew Webb.
Com informações da BBC, Daily Mail, Sky News e Independent
Impacto da tecnologia na investigação criminal
A tecnologia tem desempenhado um papel crucial nas investigações criminais atuais. O uso de dispositivos como smartphones e tablets não apenas facilita a comunicação entre criminosos, mas também fornece um rastro digital que pode ser explorado pelas autoridades. O caso do iPad encontrado no Tâmisa ilustra isso perfeitamente.
Primeiramente, a possibilidade de rastreamento de contatos e localização através de dispositivos eletrônicos criou um novo paradigma na investigação de crimes. O acesso a registros de chamadas e mensagens de texto pode revelar conexões entre indivíduos que, de outra forma, poderiam permanecer ocultas. Além disso, o uso de GPS pode oferecer pistas sobre a movimentação dos suspeitos, como foi o caso do carro de Paul Allen.
Outro ponto relevante é a forma como evidências digitais podem ser armazenadas e recuperadas. Equipamentos eletrônicos frequentemente contêm informações valiosas, como e-mails e registros de compras, que podem não apenas vincular criminosos uns aos outros, mas também associá-los a vítimas ou locais específicos. O que poderia inicialmente ser visto como um ataque isolado pode rapidamente se transformar em uma rede de crimes interligados.
De acordo com especialistas, a integração de novas tecnologias nas investigações tem sido benéfica, mas também apresenta desafios. A quantidade de dados gerados diariamente pode ser avassaladora, exigindo que as equipes de investigação sejam equipadas não só com tecnologia, mas também com o conhecimento necessário para analisar e interpretar essas informações de maneira eficaz.
A modernização das ferramentas utilizadas pela polícia, assim como o treinamento em técnicas forenses digitais, é essencial para garantir que a justiça seja feita. Fóruns de treinamento e parcerias entre agências podem ajudar a superar essa curva de aprendizado.
Outra questão importante é o respeito à privacidade e à legalidade na coleta de dados digitais. As investigações precisam equilibrar a eficiência na resolução de crimes com os direitos dos cidadãos, garantindo que as evidências sejam obtidas de maneira ética e legal. Isso pode incluir a necessidade de obter mandados para acessar informações em dispositivos pessoais, um processo que, se não seguido corretamente, pode resultar em provas serem desconsideradas em um tribunal.
A importância das investigações interinstitucionais
Um ponto a ser destacado nas investigações que envolvem crimes complexos é a importância da colaboração entre diferentes agências de segurança e órgãos de justiça. Casos como o dos criminosos Ahearne e Kelly frequentemente envolvem uma vasta gama de jurisdições, especialmente quando crimes internacionais estão em jogo.
A coordenação entre forças policiais de diferentes países, como no caso do roubo do museu em Genebra, é crucial para a captura de criminosos. O compartilhamento de informações e evidências entre diferentes instituições pode acelerar as investigações e, muitas vezes, levar ao desmantelamento de redes criminosas inteiras.
Por exemplo, na Europa, agências como a Europol atuam como intermediárias na troca de informações, facilitando investigações que se estendem além das fronteiras. Essa colaboração multidimensional não só auxilia na identificação de suspeitos, mas também contribui para a construção de casos mais robustos, reunindo evidências de várias fontes.
Além disso, é fundamental que as agências desenvolvam protocolos claros para a troca de informações e a colaboração em tempo real. Isso garante que a inteligência obtida possa ser utilizada de forma eficaz, minimizando buracos no processo investigativo que poderiam permitir que criminosos escapem da justiça.
Casos como o do iPad no Tâmisa demonstram o quão essencial é manter um fluxo contínuo de informação. Quando diferentes instituições trabalham juntas, a probabilidade de sucesso em investigações aumenta exponencialmente.
À medida que as tecnologias evoluem e os métodos de crime se tornam mais sofisticados, a inovação na colaboração e nas práticas investigativas será cada vez mais necessária. As agências devem se adaptar rapidamente às novas realidades, garantindo que todos os recursos disponíveis sejam utilizados da melhor forma possível.

