Estudos mostram uma forte relação entre maus-tratos na infância e o desenvolvimento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na adolescência. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e das Universidades Federais do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de Pelotas (UFPel) acompanharam mais de 4 mil pessoas nascidas em Pelotas desde 2004. Essa coorte coletou dados sobre o desenvolvimento psicológico e físico ao longo das fases da vida dos participantes.
De acordo com Luciana Tovo-Rodrigues, professora da UFPel e primeira autora do estudo, o que se observou foi um “mecanismo evocativo” entre TDAH, genética e maus-tratos. Isso significa que características genéticas podem desencadear comportamentos nas crianças que geram respostas negativas dos cuidadores, resultando em maus-tratos. Assim, crianças mais agitadas e desatentas estão em maior risco de desenvolver TDAH devido a reações adversas que sofrem.
Alicia Matijasevich, professora do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, ressalta que todos os tipos de maus-tratos investigados tiveram impacto sobre o desenvolvimento do TDAH. Maus-tratos físicos e agressões psicológicas foram particularmente evidentes nessa associação, apontando para a necessidade de um olhar mais atento às experiências vividas na infância.
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade, afetando cerca de 7,6% das crianças no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Esses sintomas costumam ser identificados na vida infantil, mas suas raízes podem estar profundamente ligadas a experiências traumáticas da infância.
Genética e o TDAH
A pesquisa envolveu a análise genética dos participantes, realizada por meio de amostras de saliva coletadas durante a infância. Os pesquisadores procuraram variantes genéticas já associadas ao TDAH em estudos anteriores, focando em como esses fatores genéticos se entrelaçam com experiências de vida.
A maioria das pesquisas anteriores sobre essa relação foi realizada em países de alta renda, o que torna esse estudo particularmente relevante no contexto brasileiro, onde os casos de maus-tratos a crianças são mais prevalentes. Segundo Carolina Bonilla, professora da FMUSP e coautora da pesquisa, a investigação se concentrou em variantes genéticas que, embora tenham efeitos pequenos individualmente, podem ser analisadas em conjunto, por meio de um “escore poligênico”. Esse método permite uma melhor compreensão do impacto coletivo dessas variantes no desenvolvimento do TDAH.
Traços e fatores compartilhados entre membros da família
A investigação não apenas ilumina a relação entre maus-tratos e genética, mas também sugere que esses fatores podem ser compartilhados entre membros da mesma família. Luciana Tovo-Rodrigues destaca que tanto a predisposição genética ao TDAH quanto a propensão a maus-tratos podem passar de geração para geração, criando um ciclo de vulnerabilidade.
Esses resultados reforçam a importância de estratégias de prevenção e intervenção precoce para evitar maus-tratos e o subsequente desenvolvimento de TDAH em crianças. A pesquisa indica que políticas públicas devem ser formuladas para abordar esses problemas de maneira holística, buscando não apenas tratar as consequências, mas também prevenir suas causas.
A compreensão das relações complexas entre esses fatores pode auxiliar profissionais da saúde no tratamento de crianças afetadas pelo TDAH e suas famílias, podendo reduzir a prevalência desse transtorno e melhorar a qualidade de vida daqueles que vivem em ambientes desafiadores.
Portanto, é evidente que um olhar atento às experiências da infância, aliado a um entendimento das predisposições genéticas, é fundamental para promover um desenvolvimento saudável e prevenir transtornos como o TDAH. A pesquisa nos convida a refletir sobre a importância de ambientes seguros e acolhedores para o crescimento de crianças, o que pode impactar seu futuro bem-estar mental e emocional.

