Recentemente, um triste episódio atingiu o Wild Felid Advocacy Center of Washington, um santuário conhecido por resgatar felinos selvagens. Vinte grandes felinos, incluindo um tigre meio-bengalês e quatro pumas, perderam suas vidas entre o final de novembro e meados de dezembro devido a um surto de gripe aviária causado pelo vírus H5N1. Esta situação é ainda mais preocupante, pois o país já enfrenta um surto da doença entre rebanhos de gado, com dezenas de casos registrados envolvendo a transmissão por meio de leite bovino cru.
Até o final de novembro, o santuário abrigava cerca de 40 felinos. Infelizmente, mais da metade desses animais morreu desde o início do surto, apresentando sintomas que se assemelham a uma pneumonia. Em poucos dias, outras espécies também começaram a demonstrar sinais da doença. Curiosamente, alguns gatos possuíam uma parede comum entre seus habitats, embora não interagissem diretamente.
O santuário declarou em comunicado que “essa infecção viral devastadora, transmitida por aves selvagens, se espalha principalmente por meio de secreções respiratórias e contato entre aves”. É importante destacar que os mamíferos carnívoros podem contrair a infecção ao ingerir aves contaminadas ou outros produtos. Os felinos são particularmente vulneráveis a esse vírus, que pode inicialmente apresentar sintomas sutis mas levando à morte rápida em apenas 24 horas, geralmente por complicações semelhantes à pneumonia.
Dentre os felinos afetados, os servais, que são pequenas espécies africanas, sofreram o maior impacto, com cinco mortes registradas, o que representa o maior número entre uma única espécie. O santuário está colaborando com as autoridades para rastrear a origem da infecção, embora a entrada do vírus ainda não tenha uma explicação clara. A possibilidade de que as fezes de aves selvagens tenham contaminado os habitats dos gatos ou que a carne usada na alimentação esteja na origem do surto são as principais hipóteses em análise.
Para evitar novas infecções, mais de 3 toneladas de alimentos que estavam armazenadas em congeladores foram descartadas. O santuário agora inicia um processo de saneamento rigoroso que pode levar meses. O diretor do santuário, Mark Mathews, comentou que “temos que passar por todos os habitats e desinfetá-los”. Medidas rigorosas de limpeza estão sendo tomadas, como a remoção de qualquer palha ou matéria orgânica que precise ser queimada, seguida de uma nova desinfecção.
Os profissionais atualmente utilizam roupas de proteção e máscaras N95, além de estarem tomando precauções para evitar a propagação do vírus, como a higiene dos calçados. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em um surto semelhante, entre agosto e setembro de 2024, felinos selvagens em cativeiro de dois zoológicos no sul do Vietnã também foram afetados, resultando na morte de ao menos 47 tigres, três leões e um leopardo.
O que é o vírus H5N1, da gripe aviária?
O vírus H5N1 é uma cepa do tipo influenza que foi identificada pela primeira vez em 1996 e, desde então, vem sendo monitorada por cientistas. É uma gripe extremamente letal para as aves, mas nos últimos meses tem chamado a atenção por se espalhar para outras espécies, incluindo mamíferos. É raro que o vírus infecte mamíferos; no entanto, casos anteriores já foram reportados em diversas espécies, como leões-marinhos no Peru e no Chile, elefantes marinhos na Argentina e raposas no Canadá e França. Recentemente, o H5N1 já foi detectado até na Antártida, afetando focas e leões-marinhos.
Pesquisadores informaram em julho de 2024 que mostraram pela primeira vez a transmissão do H5N1 de mamífero para mamífero. Através do sequenciamento genético do vírus satisfatoriamente isolado em rebanhos nos EUA, foi possível traçar a rota do patógeno entre animais. As primeiras transmissões ocorreram quando animais contaminados por fezes de aves foram transportados para uma população saudável de bovinos no estado de Ohio.
Este estudo indicou também que gatos e guaxinins podem ter adoecido após consumir leite cru de vacas infectadas. Diego Diel, professor de virologia na Universidade Cornell, ressaltou que “esta é uma das primeiras vezes que vemos evidências de transmissão eficiente de mamífero para mamífero”.
A gripe aviária em humanos
Até o momento, não existem evidências que indiquem que as mutações do vírus favoreçam infecções em humanos. Durante anos, os EUA não relataram casos de gripe aviária em humanos, mas a situação mudou. Desde março de 2024, foram constatados 65 casos no país, todos sem registro de transmissão entre humanos. A maioria dos pacientes exibiu sintomas leves, com infecções provocadas pelo consumo de leite cru. É importante notar que o processo de pasteurização elimina o vírus do leite, tornando-o seguro para consumo.
Segundo um relatório da OMS de dezembro de 2024, o risco do vírus à saúde pública global permanece baixo, uma vez que a incidência é reduzida e os surtos são limitados a certas regiões. Entre janeiro de 2003 e novembro de 2024, a OMS registrou 939 casos de gripe aviária confirmados em humanos, resultando em 464 mortes, o que configura uma taxa de mortalidade alarmante de 49%. É importante destacar que nenhum caso foi registrado no Brasil desde o início do monitoramento, em 2003.

