Aristóteles dizia que eles são “apaixonados, irascíveis e inclinados a se deixarem levar por seus impulsos”. Platão advertia: o consumo de bebida alcoólica nessa faixa etária é como “atear fogo ao fogo”. O primeiro psicólogo a estudá-los classificou-os como “tempestuosos”, e, séculos antes, Shakespeare resumiu: “A mocidade é inimiga de si mesma”.
A adolescência carrega má fama mesmo antes de a palavra – que deriva do latim adolescere (“crescer”) – surgir, no século 15. Ainda hoje, os que estão deixando a infância são vistos como rebeldes, imprudentes, indisciplinados, preguiçosos, raivosos, teimosos e o pesadelo de pais e professores. E, embora essas sejam generalizações, nenhuma delas é exatamente infundada.
Na última década, eles se tornaram protagonistas de uma preocupação inédita na história humana: a primeira geração a crescer com smartphones teve a saúde mental destruída pelo feed de rolagem infinita e tem acesso virtualmente ilimitado a conteúdos que estimulam transtornos de autoimagem, radicalização ideológica e comportamentos violentos – uma preocupação de pais e autoridades mundo afora que culminou com o hit Adolescência, da Netflix: a história de um menino de 13 anos acusado de cometer feminicídio.
Enquanto isso, estudos recentes em áreas tão variadas quanto psicologia, neurociência, sociologia e pedagogia vêm mostrando que a adolescência é muito mais do que espinhas, hormônios ouriçados, mudanças constantes de humor e riscos para a sociedade.
Essa fase é crucial para a formação da personalidade e da identidade durante toda a vida, e mesmo características tidas como negativas, como a impulsividade e a desobediência, têm explicações evolutivas e são imprescindíveis para que nossa civilização funcione: “É graças aos adolescentes, que assumem mais riscos, que o mundo vai adiante”, diz Teresa Helena Schoen, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora da adolescência. “Se esperássemos que as decisões fossem tomadas por adultos, nada mudaria.”
Nos próximos parágrafos, vamos explorar o que a ciência tem a nos revelar sobre o período mais conturbado da vida – e como podemos transformá-lo numa experiência mais agradável e saudável.
O que é a adolescência?
O que é, afinal, a adolescência? A resposta não é tão óbvia – a ideia de que existe uma fase intermediária entre a infância e a vida adulta é surpreendentemente recente. Pessoas jovens sempre foram vistas como um grupo de comportamento temerário, como mostram os exemplos do início deste texto. Porém, em muitas culturas, a passagem para a vida adulta ainda é abrupta, geralmente marcada por algum rito. Em um dia você é criança, no dia seguinte não é mais.
Por séculos, os que chamamos de adolescentes eram vistos pela sociedade como adultos em formação, que já podiam trabalhar, casar e ter filhos, ainda que fossem inexperientes. A dita adolescência era entendida como uma fase de transição, que misturava comportamentos de crianças e de crescidos – e não uma etapa distinta do desenvolvimento humano, com características próprias.
Foi só no final do século 19 que, na maior parte do Ocidente, leis que restringiam o trabalho infantil entraram em jogo, o que aumentou o número de crianças nas escolas. “A adolescência como construção social surge com a ampliação da educação formal universal”, diz Schoen. O agrupamento de vários indivíduos da mesma faixa etária em uma sala de aula, por muitas horas diárias, tornou evidente que uma pessoa de 15 anos é bem diferente tanto de uma criança como de um adulto.
Ao longo do século 20, a ideia foi se cristalizando no imaginário popular, processo que ganhou força após a 2ª Guerra Mundial. O choque da sociedade ao ver meninos de 15 ou 16 anos matando, morrendo e cometendo atrocidades gerou um consenso de que esses indivíduos não podiam ser considerados adultos e precisavam ser resguardados de alguma forma da estupidez dos mais velhos.
A definição da adolescência
Há uma surpreendente falta de consenso sobre a extensão da adolescência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece o intervalo entre 10 e 19 anos; o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por sua vez, considera que ela vai dos 12 até o aniversário de 18 anos. Pode parecer uma diferença pequena – mas repare que pela segunda definição, que tem força de lei, jovens de 18 e 19 anos são legalmente adultos.
Definir quando a adolescência começa é um pouco menos controverso porque envolve um fator biológico fácil de aferir – o início da puberdade. Esta parte você já sabe: nosso corpo precisa se preparar para fazer bebês, e essa metamorfose é guiada por hormônios, mensageiros químicos que regulam diversos processos fisiológicos.
Os mais importantes são os hormônios sexuais – testosterona nos meninos, estrogênio e progesterona nas meninas –, que regulam as características sexuais primárias e secundárias, resultando no pacote constrangedor típico do Ensino Fundamental II: aparecimento de pelos, desenvolvimento de mamas, alterações na voz.
Mas não só: vários outros hormônios entram na jogada, como os de crescimento (GH e IGF-1), e há mudanças nos padrões de produção do cortisol e da melatonina também. Essa tempestade hormonal ajuda a explicar as constantes mudanças de humor típicas dessa fase.
O maior marco do final da infância é, portanto, a maturação sexual. Nas meninas, a menarca (primeira menstruação) costuma acontecer entre os 12 e 13 anos, ainda que haja muita variação individual. Nos meninos, a semenarca (primeira ejaculação) é alguns meses mais tardia: em média, ocorre aos 13 anos.
Adolescência e a modernidade
Mesmo esse referencial biológico não pode ser traduzido automaticamente na definição social de adolescência, pois dados mostram que a puberdade está acontecendo cada vez mais cedo, mesmo considerando variações individuais esperadas. O fenômeno é mais comum em meninas e atinge várias populações distintas: na Dinamarca, por exemplo, a idade média do desenvolvimento dos seios caiu um ano inteiro entre 1991 e 2006; na China, a idade média da primeira menstruação também diminuiu um ano entre 1985 e 2010.
As razões mais prováveis por trás desse fenômeno são mudanças na dieta e no peso corporal. Meninas precisam de uma quantidade mínima de gordura para menstruar, e o aumento do sobrepeso e da obesidade infantil pode estar adiantando a menarca. Seguindo a lógica oposta, o problema da desnutrição infantil era mais comum nas décadas passadas, o que jogava a média para cima.
Isso levanta uma questão: uma menina de oito anos que já menstruou pode ser considerada adolescente, mesmo que psicologicamente e culturalmente ela ainda seja muito mais parecida com uma criança? É por isso que o critério biológico, por si só, não basta.
Definir quando a adolescência acaba é ainda mais complicado, porque não há um marco biológico específico. Algumas das mudanças corporais típicas da puberdade podem se cristalizar aos 15 anos, enquanto outras podem se estender até depois dos 20.
No fim, o critério para decretar o fim da adolescência é puramente cultural, baseado em comportamentos que são associados à “vida adulta”: sair da casa dos pais, finalizar os estudos para trabalhar, casar, ter filhos, pagar as próprias contas etc. A maioria das definições estipula algum momento entre 18 e 21 anos como o início da vida adulta.
Temos aqui outro impasse: com o envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida e o prolongamento dos estudos na maioria dos países, os jovens estão adiando cada vez mais sua entrada efetiva na vida adulta. No Brasil, por exemplo, a idade média do primeiro casamento para uma mulher era de 22 anos há três décadas. Hoje estamos em 28 anos, segundo o IBGE. E, no mundo todo, os jovens contemporâneos estão exibindo cada vez menos comportamentos tradicionalmente associados à transição da adolescência para a vida adulta, como consumir álcool e ter uma vida sexual ativa.
Esse adiamento das funções sociais adultas é um dos dois principais motivos pelos quais alguns cientistas defendem que é hora de estender a adolescência até os 25 anos. O outro motivo é neurológico.
O desenvolvimento cerebral na adolescência
Grosso modo, dá para dividir os animais em dois grupos. Os precociais são aqueles que saem do útero (ou do ovo) dependendo pouco de seus pais: os genitores ajudam as crias por um breve período. Já os altriciais são o contrário: precisam de cuidados parentais por um longo período após o nascimento.
É o que acontece com cangurus, cães e, claro, humanos. Nós somos um exemplo particularmente radical da altricialidade, mesmo entre os primatas: recém-nascidos, como você bem sabe, nada fazem além de chorar. Bebês precisam de adultos para tudo: se alimentar, se locomover, se proteger de predadores – e leva muitos anos até que um humano consiga fazer essas coisas por si só.
Do ponto de vista evolutivo, pode parecer uma fraqueza nascer tão vulnerável na natureza, mas somos uma espécie social, e é instintivo não só para os pais da criança como para os outros indivíduos adultos do grupo cuidar dos bebês. Por outro lado, há uma vantagem imensa em não vir pronto da fábrica: o cérebro humano passa por uma longa fase de desenvolvimento fora do útero, que o torna extremamente flexível para lidar com o mundo.
A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais
“O cérebro na infância é muito plástico, com uma capacidade muito grande de aprender”, explica Sabine Pompeia, professora de Cognição Humana na Unifesp e coordenadora de um grupo de pesquisa. “Não dá para nascer totalmente pronto porque precisamos nos adaptar ao contexto social e físico em que nascemos.” Essa característica é que permitiu ao Homo sapiens habitar basicamente todos os locais da Terra, por mais distintos que sejam.
Ao longo da infância, novas sinapses (ligações entre os neurônios) se formam em ritmo frenético. É por causa dessa produção acelerada de novas sinapses que é tão mais fácil aprender uma língua nova ou tocar um instrumento quando se é criança.
No entanto, quando a puberdade chega, acontece a “poda sináptica”: conexões menos usadas são descartadas, enquanto as mais utilizadas ficam reforçadas.
O amadurecimento cerebral na adolescência não está relacionado ao crescimento de volume, mas sim a um aumento nas bainhas de mielina, que revestem os axônios e aumentam a eficiência da transmissão dos impulsos nervosos.
Juntos, os neurônios envoltos em mielina formam a massa branca do cérebro. Essa massa é menos plástica que a massa cinzenta, mas é mais especializada e interconectada. Um cérebro maduro é aquele em que diferentes áreas trabalham em conjunto, algo que só passa a acontecer em grande escala após a mielinização dos neurônios.
O pulo do gato é que as barrinhas de mielina não se desenvolvem todas simultaneamente. O sistema límbico, responsável por emoções e impulsos, é uma das primeiras áreas a amadurecer, geralmente nos primeiros anos de puberdade. Contudo, o córtex pré-frontal, responsável por raciocínio lógico e regulação de emoções, termina seu processo de mielinização por volta dos 25 anos.
Essa discrepância de desenvolvimento provoca uma década inteira de descompasso no cérebro, onde o lado mais impulsivo predomina. Por isso, adolescentes tendem a ser mais impulsivos e menos cautelosos do que os adultos.
É por isso que alguns cientistas argumentam que o conceito de adolescência deveria ser estendido até os 25 anos, quando o córtex pré-frontal finalmente assume o controle do jovem.
Essa questão levanta considerações sobre como as punições devem ser aplicadas a comportamentos inadequados e criminosos. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte decidiu que menores de 18 anos podem ser julgados por seus atos, mas a pena de morte, legal em vários estados, não pode ser aplicada a eles.
A maioria dos juízes concordou que os adolescentes são capazes de diferenciar entre certo e errado, mas a pena capital é considerada demasiado severa para uma faixa etária em que o cérebro ainda não está suficientemente maduro.
A rebeldia como vantagem evolutiva
Ter uma fase inteira do desenvolvimento em que o lado “irracional” do cérebro supera o lado “racional” pode parecer uma fraqueza. Contudo, existem perforações em várias espécies que demonstram como essa fase pode ser benéfica. No livro Wildhood, pesquisadores argumentam que muitos animais têm seus próprios períodos de adolescência, onde precisam aprender a viver sozinhos.
Esses animais, assim como os humanos, costumam agir com maior imprudência. Por exemplo, os jovens lobos assistem aos adultos em caçadas antes de tentar por conta própria. O mesmo vale para albatrozes, que praticam os rituais de cortejo entre si antes de convidar as fêmeas para sair.
Embora correr riscos possa levar a consequências fatais, essa imprudência é também uma oportunidade de aprendizado. As experiências – tanto as boas quanto as ruins – são valiosas para o crescimento, e é por isso que essa fase de rebeldia é crucial para a evolução.
Os desafios da adolescência moderna
A combinação de alterações hormonais, busca por aceitação social e pressões externas contribui para um aumento dos distúrbios mentais entre os jovens. Dados mostram que 75% dos problemas de saúde mental surgem entre os 14 e 25 anos, e os índices têm aumentado, especialmente com a introdução das redes sociais.
As redes sociais, ao invés de facilitar a interação, muitas vezes promovem um ambiente nocivo, onde a comparação social e os padrões de beleza idealizados perturbam a saúde mental. Além disso, a exposição a conteúdos extremistas e inapropriados também é um fator de preocupação crescente entre essa geração.
A educação e o letramento digital se tornam essenciais nesse contexto. Algumas nações já implementaram esses tópicos em seus currículos escolares, mas existe resistência significativa na inclusão desses assuntos de forma eficaz.
Ter uma comunicação aberta em casa é igualmente vital. Pais que adotam uma postura curiosa em detrimento de um tom de julgamento facilitam a aproximação com os filhos e contribuem para um ambiente de maior compreensão.
Por todos esses fatores, a adolescência se mostra como uma fase complexa e multifacetada, exigindo atenção e compreensão tanto de educadores quanto de familiares, para que os jovens possam transitar por essas mudanças de forma mais saudável.
A importância da empatia e compreensão
Um editorial do prestigioso periódico Nature resumiu bem essa realidade: “É difícil se tornar adulto. Em muitas culturas, pais, educadores, médicos e aqueles que fazem políticas públicas criticam adolescentes por sua impulsividade, não entendem sua raiva e ridicularizam sua linguagem e seus costumes. A próxima geração merece mais. E podemos começar prestando atenção nela.”

