Os trabalhadores que atuam como motoristas ou entregadores de aplicativo já somam cerca de 1,4 milhão no Brasil. A informação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e conta com uma projeção feita a partir de dados do IBGE. Segundo o relatório, tais profissionais representam aproximadamente 31% das pessoas alocadas no setor de transporte, armazenagem e correios do país.
Segundo o Ipea, os números revelam uma alta de 60% na categoria em relação a cinco anos atrás — em 2016, motoristas de app no Brasil somavam 840 mil. O fenômeno está diretamente relacionado às dificuldades de encontrar boas oportunidades com vínculo empregatício no país.
Em 2020, houve uma redução na quantidade de profissionais atuando na área, devido às implicações da pandemia de COVID-19 — o cenário voltou a se estabilizar no primeiro semestre de 2021, com uma recuperação do setor de mobilidade. Agora são cerca de 1,1 milhão de pessoas trabalhando com transporte de passageiros por aplicativo.
Delivery por app cresce 980%
Ainda de acordo com o Ipea, o número de trabalhadores que entregam mercadorias por app — categoria que inclui empresas como iFood, Rappi e Uber Eats — cresceu 979,8% em cinco anos, de 30 mil para 278 mil no segundo trimestre de 2021.
Além disso, cresceu o percentual de pessoas que realizam essas atividades como trabalho secundário, para conseguir uma renda extra que complemente sua ocupação principal: de 5% para 7,4% em 2019.
Os desafios da “gig economy”
O conceito de gig economy envolve trabalhadores autônomos em busca de flexibilidade e valorização de serviços, mas esbarra em desafios trabalhistas complexos, que se manifestam nas atividades do dia a dia.
O estudo do Ipea destaca alguns impactos a curto prazo, como a redução de renda e aumento de vulnerabilidade dos trabalhadores que ficam sem acesso a seguro-desemprego, auxílio-doença e outras garantias.
Temas como a alta nos combustíveis e a precarização das relações de trabalho estão cada vez mais em evidência. A relação entre empresas e motoristas de aplicativo torna-se uma questão urgente à medida que o setor continua a se expandir.
O crescimento do número de trabalhadores por aplicativo também levanta questões sobre a regulamentação do setor. Como garantir direitos trabalhistas para esses operários, que muitas vezes não possuem vínculos formais? As políticas públicas precisam acompanhar essa evolução no mercado de trabalho.
Além disso, a natureza flexível do trabalho em aplicativos pode ser uma faca de dois gumes. Embora os motoristas e entregadores tenham a liberdade de definir seus horários, essa flexibilidade nem sempre se traduz em segurança financeira. Assim, muitos trabalhadores enfrentam incertezas em relação à sua renda e benefícios.
Os desafios são muitos, e a resposta do mercado e do governo terá um impacto definitivo na vida de milhões de brasileiros que encontram na gig economy uma alternativa para o desemprego e a falta de oportunidades formais.
O futuro dos motoristas de aplicativo no Brasil
O futuro para motoristas e entregadores de aplicativo no Brasil é incerto. A pandemia mostrou fragilidades no setor, mas também trouxe inovações e aumentou a demanda por serviços de entrega. É um campo em constante transformação, com novas tecnologias surgindo e as expectativas dos consumidores mudando rapidamente.
As grandes plataformas de aplicativos estão investindo em melhorias, como maior segurança para os trabalhadores e melhores condições de trabalho. No entanto, tais esforços variam de empresa para empresa, e muitos motoristas ainda se sentem desprotegidos e sem suporte adequado.
Ademais, a concorrência crescente entre os aplicativos faz com que as margens de lucro sejam cada vez menores. Com isso, questões sobre a sobrevivência do trabalhador autônomo entram em jogo. É essencial que motoristas e entregadores estejam bem informados sobre seus direitos e busquem organização e apoio, seja por meio de sindicatos ou redes de suporte mútuo.
Os motoristas de aplicativo podem se beneficiar de experiências compartilhadas e de uma disposição coletiva para negociar melhores condições. Essas ações podem se tornar um diferencial em um mercado tão competitivo.
Um ponto importante a ser considerado é a capacitação dos trabalhadores. Investir na formação e educação pode ajudar motoristas e entregadores a se adaptarem a diferentes cenários e aumentar sua resiliência frente às adversidades que surgem no setor.
A resposta necessária do governo e das plataformas
As plataformas de entregas e transporte precisam adotar uma postura mais proativa para garantir que seus condutores tenham um mínimo de segurança financeira e proteção trabalhista. Modelos de previsão de demanda e a oferta de melhores condições de trabalho devem ser prioridades.
Para os governos, a criação de políticas que regulamentem a gig economy é fundamental. Isso inclui desde a definição de direitos e deveres até formas de garantir que os trabalhadores autônomos tenham acesso a benefícios tradicionais, como aposentadoria e seguro-saúde.
Além disso, o impacto ambiental das entregas rápidas e do aumento do uso de veículos deve ser levado em conta. A discussão sobre a sustentabilidade das operações não pode ser negligenciada, e soluções que considerem a proteção do meio ambiente devem ser encontradas com urgência.
Por fim, a sociedade também desempenha um papel. A forma como encaramos e valorizamos esses trabalhadores pode influenciar diretamente as condições em que eles atuam. Um reconhecimento mais amplo de seu trabalho e importância é essencial para fomentar um ambiente onde todos possam prosperar.
As expectativas para o setor em 2023
O setor de entregas e transporte por aplicativo deve continuar a crescer em 2023. No entanto, com esse crescimento, vêm também a necessidade de maior regulamentação e revisão das condições de trabalho desses profissionais.
A digitalização do setor, impulsionada pela pandemia, provocou uma mudança no comportamento do consumidor que provavelmente se estabilizará a longo prazo. Portanto, as plataformas e o governo devem agir rapidamente para atender essas novas demandas.
Além disso, o desenvolvimento de alternativas sustentáveis deverá ser uma tendência crescente. A mobilidade elétrica e alternativas de entrega mais verdes já estão no horizonte de diversas empresas. O compromisso com um futuro sustentável pode se tornar um diferencial competitivo importante.
As discussões sobre direitos trabalhistas e a segurança dos trabalhadores também estão em alta. Com as crescentes demandas sociais por justiça trabalhista, é provável que haja um movimento crescente em direção à regulamentação do setor, com possíveis mudanças nas leis que regem o trabalho autônomo.
Em suma, o futuro do trabalho por aplicativo no Brasil é uma questão complexa, que envolve múltiplas camadas de fatores sociais, econômicos e legais. Com as transformações que estão tomando forma, o monitoramento constante e a adaptação das práticas de mercado serão vitais para garantir que motoristas e entregadores encontrem um caminho seguro e sustentável.

