Desde a Revolução Industrial, a Terra esquentou 1,5°C, e esse recorde foi batido em 2024. Esta é a média global, mas alguns locais sentem os efeitos do aquecimento de forma mais intensa. O Ártico, por exemplo, aquece pelo menos quatro vezes mais rápido do que a média mundial.
Atraindo a atenção de cientistas e ecologistas, um novo estudo publicado na Nature Geoscience revela que o manto de gelo da Groenlândia está se quebrando em fissuras a uma velocidade muito maior do que o esperado. O planeta Terra possui dois grandes mantos de gelo: o da Groenlândia e o da Antártica, que juntos representam reservas congeladas de água doce com mais de 50 mil quilômetros quadrados. Essas camadas se formam pela compactação da neve que nunca derrete.
Com o aquecimento do ar, a neve do topo transforma-se em água, que lubrifica a camada de gelo, acelerando o derretimento e sua movimentação em direção ao oceano. Esse fenômeno gera canais de fluxo de gelo e lagos supraglaciares, que ao longo do tempo criam fendas superficiais nas geleiras. Esses lagos podem fornecer água quente às bases glaciais, facilitando ainda mais este processo.
À medida que o gelo flui do planalto central – o ponto mais alto da camada –, grandes blocos de gelo se deslocam. Conforme o gelo encontra o mar, formam-se fraturas iniciais que permitem que icebergs se desprendam da geleira, aumentando a quantidade de icebergs que vão para o oceano. Tom Chudley, autor do estudo, afirma que essa dinâmica é crucial para entender melhor as consequências do derretimento.
De acordo com a NASA, as fissuras superficiais presentes no manto da Groenlândia representam uma fonte significativa de incerteza em relação aos processos que controlam a perda de massa de gelo. Até o momento, havia poucas observações detalhadas sobre sua localização e evolução ao longo do tempo. O novo artigo intenta mudar essa realidade.
Por meio da criação de mapas tridimensionais realizados com imagens de satélites, os pesquisadores analisaram as fissuras entre 2016 e 2021. Os dados revelam um aumento significativo tanto no tamanho quanto na profundidade das fissuras, em um ritmo mais acelerado do que o observado anteriormente.
“A maior surpresa foi a rapidez com que isso estava acontecendo. Um estudo anterior mostrava mudanças ocorrendo em escalas de décadas, e agora estamos demonstrando que essas mudanças podem ocorrer em apenas cinco anos,” afirmou Chudley ao The Guardian.
Cortesia do aquecimento global
Nos últimos 40 anos, o aquecimento dos oceanos quadruplicou, e as previsões indicam que essa tendência deverá continuar. O Ártico pode esperar o primeiro dia sem gelo nos mares antes de 2030, o que traz ainda mais preocupações. Uma questão crítica vinculada ao derretimento polar é o aumento do nível do mar.
O estudo aponta que, desde 1992, a Groenlândia já contribuiu com 14mm para o crescimento do nível do mar. O aumento da temperatura provoca derretimento nas geleiras e um fluxo maior de gelo para o oceano. Entre 2002 e 2023, os mantos da Antártica e da Groenlândia liberaram gelo suficiente para elevar o nível do mar em aproximadamente 1,2mm por ano.
Esse número pode parecer baixo, mas para cada centímetro (10mm) adicional no nível dos oceanos, cerca de seis milhões de pessoas podem enfrentar o risco de inundações costeiras. “Essas intrínsecas instabilidades estão potencialmente causando até um metro de elevação do nível do mar até 2100 e até 10 metros até 2300,” destaca Chudley.
A esperança é que o estudo contribua para outras pesquisas, com o objetivo de projetar o futuro aumento do nível do mar. “Precisamos aprimorar nossas estimativas sobre a elevação do nível do mar, pois isso é essencial para planejarmos, mitigarmos e nos adaptarmos a essa nova realidade nos próximos séculos,” argumenta Chudley.
O impacto do aquecimento global nas geleiras
As geleiras são um dos componentes mais sensíveis ao aquecimento global. O processo de derretimento pode ter efeitos cascata não apenas nas geleiras em si, mas também em ecossistemas que dependem da água gerada por esse derretimento. Em regiões montanhosas, como a Cordilheira dos Andes, esse fenômeno já tem provocado mudanças na disponibilidade de água para diversas comunidades.
Além disso, o derretimento, especialmente em áreas como a Groenlândia, altera a circulação oceânica e atmosférica. Isso não só prejudica a fauna local, como também pode afetar padrões climáticos em todo o mundo. Por exemplo, a alteração nos padrões de pressão atmosférica pode resultar em climas mais extremos, com secas severas em algumas regiões e inundações em outras.
Essa mudança climática também afeta a biodiversidade. Animais que dependem do gelo, como ursos polares e focas, estão enfrentando a escassez de seu habitat natural. O desaparecimento das geleiras pode levar até à extinção de algumas espécies, além de causar um deslocamento de outras que tentam se adaptar às novas condições climáticas.
Os recifes de coral, por exemplo, já estão sendo afetados pela acidificação dos oceanos, decorrente do aumento da temperatura e da absorção do CO2. Isso tem implicações diretas na pesca e na subsistência das comunidades costeiras que dependem desses ecossistemas para sua sobrevivência.
As observaçõe científicas já confirmam que os glaciares no mundo estão diminuindo rapidamente, e este fenômeno se acelera à medida que as temperaturas médias globais aumentam. Estudos mostram que, se a temperatura continuar subindo, áreas antes cobertas por gelo podem se transformar em ecossistemas completamente diferentes em um curto espaço de tempo.
Assim, implementar políticas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa se torna crucial para mitigar as consequências do clima em mudança. A transição para fontes de energia renovável, a reabilitação de florestas e a conservação de áreas naturais são algumas das estratégias que podem ajudar a conter o aquecimento global e proteger nossos mantos de gelo.
Com o conhecimento adquirido por estudos, chega a hora de transformar a teoria em ação. O futuro do nosso planeta pode depender das decisões que tomamos hoje em relação ao aquecimento global.

