Na noite do Globo de Ouro, no último domingo (5), não foram só Fernanda Torres e os brasileiros que saíram comemorando. Um filme independente e ambicioso de 3 horas e 35 minutos, que demorou sete anos para ser feito e foi filmado com um processo fotográfico que não era utilizado desde 1961 – ou seja, um completo azarão – saiu do prêmio como um dos favoritos para o Oscar, que acontece no dia 2 de março.
O Brutalista é a nova produção de Brady Corbet, que começou como ator antes de dirigir seu primeiro filme, em 2015. No Globo de Ouro, Corbet ganhou o prêmio de Melhor Diretor, e seu épico histórico ganhou como Melhor Filme de Drama.
Quando o filme estreou no Festival de Veneza, em setembro de 2024, ainda estava sem uma empresa distribuidora para levá-lo às salas de cinema. Quem comprou os direitos da obra nos Estados Unidos foi a A24, produtora descolada responsável por alguns dos principais filmes das últimas temporadas de premiação, como Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo e Moonlight, ambos vencedores do Oscar de Melhor Filme.
As indicações ao Oscar só serão reveladas no dia 17 de janeiro. O Brutalista é uma das apostas mais confiáveis para estar entre os principais indicados do prêmio mais importante do cinema.
Vamos entender a trajetória desse hit improvável – sem spoilers, claro.
Pechincha cinematográfica
O filme conta a história de László Tóth (interpretado por Adrien Brody, que levou para casa o prêmio de Melhor Ator Dramático no Globo de Ouro), um arquiteto judeu da Hungria que, depois de sobreviver ao Holocausto, imigra para os Estados Unidos para poder começar do zero. Dá uma olhada no trailer (fantástico, diga-se):
Tóth foi trabalhar na indústria do carvão, sem poder exercer sua vocação, até que um cliente rico que gosta de arquitetura brutalista (interpretado por Guy Pearce, de Amnésia) o redescobre, com a encomenda de um projeto para o prédio de um instituto público.
O brutalismo, vale dizer, é um ramo da arquitetura moderna que alcançou seu auge entre os anos 1950 e 1970. Sua principal característica é o uso aparente de concreto bruto. No Brasil, pense em obras de Oscar Niemeyer, como o Copan e os edifícios públicos de Brasília, ou no MASP, da arquiteta Lina Bo Bardi.
Voltar para sua verdadeira vocação também é, para Tóth, um meio de se reencontrar com sua paixão, Erzsébet (Felicity Jones, de Rogue One), a esposa da qual ele foi separado pela guerra, que também sobreviveu aos campos e foi para os Estados Unidos.
A história é ficcional, se estendendo durante três décadas, e as obras arquitetônicas de Tóth foram pensadas pela designer de produção Judy Becker. O orçamento, de cerca de US$ 9,6 milhões (R$ 58,5 milhões), não é muita coisa para um filme de proporções épicas de mais de três horas de duração – um blockbuster de Hollywood normalmente custa, chutando baixo, dez vezes isso. Corbet levou sete anos para conseguir financiar e realizar o projeto.
O filme foi filmado em VistaVision, um processo fotográfico que foi criado nos anos 1950 e praticamente aposentado nos anos 1960. Nas últimas décadas, a técnica só foi utilizada em algumas cenas para criar efeitos especiais, nunca mais em um filme inteiro. As câmeras usavam filme analógico de 35 mm disposto de forma horizontal, diferente do padrão vertical, o que possibilita que a tela ampla fique maior e com resolução melhor.
O filme é dividido em dois atos, com um intervalo de 15 minutos entre as duas partes para ir ao banheiro, reabastecer a pipoca e tomar um ar. O Brutalista foi louvado pelos críticos desde sua primeira sessão, em setembro do ano passado, e a tecnologia VistaVision que ele ressuscitou já está sendo utilizada pelo consagrado Paul Thomas Anderson para filmar seu próximo filme, estrelado por Leonardo DiCaprio.
Alguns poucos sortudos puderam assistir ao filme em outubro, em sessões da 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Tudo indica que um épico como esse merece ser visto na maior tela possível, então para o restante de nós, esperar vai ser o jeito: a data de estreia de O Brutalista nos cinemas brasileiros é 20 de fevereiro.
Explorando a Narrativa e Técnica do Filme
A narrativa de O Brutalista vai além de uma simples biografia. Corbet utiliza a vida de Tóth para explorar temas universais como a busca por identidade, a luta contra as adversidades e o poder da arte na recuperação emocional. László representa todo aquele que, após um grande trauma, tenta reerguer não apenas sua vida, mas também sua carreira. Essa mensagem ressoa fortemente em um mundo onde muitos se sentem perdidos após crises, sejam pessoais ou coletivas.
A riqueza da produção se reflete também na escolha dos cenários e na fotografia. Ao empregar o VistaVision, Corbet revive não apenas uma técnica, mas recria a atmosfera de um tempo em que o cinema era uma experiência imersiva. A escolha por filmar em 35 mm, com toda a sua textura e profundidade, dá ao filme um ar nostálgico e, ao mesmo tempo, inovador. Cada cena foi meticulosamente planejada para refletir os contrastes da vida de Tóth. Isso é especialmente notável em momentos que retratam sua vida antes e depois da imigração.
Outra peculiaridade é a forma como a arquitetura é um personagem à parte no filme. As obras de Tóth não apenas embelezam o espaço urbano; elas contam histórias. As construções brutalistas que ele projetou não são meras estruturas, mas manifestações de memória, sobrevivência e esperança. Cada vez que a câmera mergulha em um dos projetos arquitetônicos, somos lembrados da importância de deixarmos nossas marcas no mundo, mesmo diante das adversidades.
As atuações são um ponto alto da película. Adrien Brody traz uma intensidade e fragilidade dignas de um protagonista que carrega um pesado fardo emocional. A química entre Brody e Felicity Jones é palpável e realista, espelhando a complexidade dos relacionamentos humanos em tempos difíceis.
A maneira como Corbet dirige a interação entre os personagens oferece ao público uma visão das relações familiares e amorosas que foram desfeitas pela guerra. O roteiro oferece diálogos que fluem naturalmente, permitindo que o espectador sinta todas as emoções presentes ao longo do filme. Corbet, portanto, considera o público não apenas como observador, mas como parte da história.
Os críticos têm ressaltado que a duração extensa de O Brutalista pode parecer intimidadora, mas é, na verdade, um de seus maiores trunfos. A obra convida o espectador a se perder na narrativa, a se permitir mergulhar e entender a complexidade da vida de Tóth. Esse tempo dedicado ao desenvolvimento da história e dos personagens se transforma em uma experiência rica e gratificante, onde cada minuto conta.
Além disso, a trilha sonora desempenha um papel fundamental em guiar as emoções do público. Composta de maneira a complementar os temas visuais, a música se transforma em um elo vital entre o que está acontecendo na tela e o que o espectador sente em seu interior. A escolha dos instrumentos e as melodias criadas geram momentos de reflexão e de culminância emocional que ressoam mesmo após o final do filme.
Assim, O Brutalista se apresenta como um marco do cinema contemporâneo. Ele não apenas resgata uma técnica esquecida, mas cria uma nova forma de contar histórias, onde a arte, a memória e a humanidade se entrelaçam. O filme desafia as convenções e estabelece um novo padrão para as produções que perseguem o reconhecimento e a reflexão genuína sobre o mundo que habitamos.

