Em 2024, o Brasil registrou o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais em uma década. Esse aumento acendeu um alerta sobre a saúde mental nas empresas e reforçou a necessidade de melhores práticas na gestão de pessoas.
No dia 24 de maio, o governo federal oficializou o adiamento da atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1). Essa norma tinha como objetivo exigir das empresas a identificação de riscos psicossociais e a adoção de medidas para proteger a saúde mental dos profissionais. A proposta previa ações para garantir que os trabalhadores não adoeçam mentalmente devido à sobrecarga de trabalho, assédio moral ou sexual, e estresse em ambientes tóxicos.
Com a atualização prevista para entrar em vigor, a nova regulamentação agora terá caráter apenas orientativo até maio de 2026. Neste intervalo, as empresas não poderão ser multadas por descumprimento, mas devem se adaptar. Segundo um porta-voz do Machado Meyer Advogados, “a obrigação de considerar os aspectos de saúde mental é vigente e não deve ser negligenciada pelas empresas”. Ele acrescenta que “o adiamento fornece uma oportunidade para que as organizações se preparem adequadamente, mas não isenta a responsabilidade de promover ambientes de trabalho saudáveis e seguros”.
Dados alarmantes sobre afastamentos por transtornos mentais
Em 2024, segundo informações do Ministério da Previdência Social, foram registradas 472 mil licenças concedidas por transtornos mentais, representando um aumento de aproximadamente 67% em relação ao ano anterior. Essa estatística levanta a importância de um compromisso das empresas em cuidar do bem-estar psicológico dos seus funcionários.
O que muda na prática com a nova NR-1?
A atualização da NR-1, determinada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, traz uma nova abordagem para a saúde mental no ambiente laboral. “A saúde mental deixará de ser tratada como algo subjetivo e passará a ser uma responsabilidade formal das empresas”, afirma Ana Carolina Peuker, especialista em saúde mental no trabalho e membro do Movimento Mente Em Foco do Pacto Global da ONU.
A principal mudança será a obrigatoriedade de incluir a avaliação e o gerenciamento dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). “As empresas devem contar com assessoria especializada em saúde e medicina ocupacionais para identificar esses riscos, além de implementar medidas eficazes de prevenção e mitigação”, explica Andrea Massei, sócia do Machado Meyer Advogados.
Tatiana Pimenta, CEO e cofundadora da plataforma de terapia online Vittude, destaca alguns passos que as empresas devem adotar no Programa de Gerenciamento de Risco:
- Identificar perigos psicossociais no ambiente de trabalho, como sobrecarga, falta de autonomia, jornadas prolongadas, assédio moral e insegurança no emprego;
- Avaliar esses riscos, classificando sua gravidade e probabilidade para definir prioridades de ação;
- Elaborar um plano de ação com prazos e medidas preventivas e corretivas;
- Monitorar continuamente esses riscos, revisando periodicamente as medidas implementadas.
A atualização da NR-1 exige que esse processo seja contínuo, com avaliações periódicas para garantir a eficácia das medidas adotadas. “As avaliações podem considerar fatores como volume de trabalho, pressão em razão de metas e riscos de assédio moral”, afirma Massei.
Impactos do adoecimento mental no mercado de trabalho
O aumento nos afastamentos indica uma crise de saúde mental que afeta não apenas os indivíduos, mas também o desempenho das organizações. O custo com afastamentos é significativo e pode impactar a produtividade e a moral da equipe. Empresas que ignoram essas questões ficam vulneráveis a um ambiente de trabalho tóxico, o que pode afetar a retenção de talentos.
Realizar ações voltadas ao bem-estar mental é não só uma responsabilidade ética, mas também uma estratégia inteligente de negócios. Os efeitos de um ambiente emocionalmente favorecido se traduzem em colaboradores mais engajados e produtivos.
Uma estratégia eficaz para promover a saúde mental no trabalho pode incluir iniciativas como:
- Promover espaços de diálogo onde os funcionários possam expressar suas preocupações;
- Implementar programas de treinamento sobre saúde mental e gestão de estresse;
- Oferecer acesso a serviços de apoio psicológico, como terapia online ou presencial;
- Fomentar uma cultura de feedback constante, onde o funcionário se sente ouvido e valorizado.
Métricas para avaliar a saúde mental no trabalho
A adoção de métricas pode ajudar a avaliar a eficácia das medidas implementadas. Algumas métricas importantes a serem consideradas incluem:
- Taxa de absenteísmo e presenteísmo;
- Índices de satisfação e engajamento dos colaboradores;
- Respondência dos funcionários em consultas sobre seu bem-estar;
- Avaliações de desempenho que considerem os efeitos do ambiente de trabalho na produtividade.
Além das métricas mencionadas, realizações de pesquisas e entrevistas qualitativas também podem fornecer uma visão mais aprofundada sobre como os colaboradores percebem o ambiente de trabalho, permitindo ajustes nas políticas de saúde mental.
Casos de sucesso na implementação de políticas de saúde mental
Algumas empresas têm se destacado ao implementar medidas eficazes de gerenciamento de riscos psicossociais. Um exemplo é uma grande empresa de tecnologia que adotou um programa de bem-estar que inclui sessões semanais de mindfulness e terapia em grupo. Isso resultou em uma diminuição significativa no absenteísmo e uma melhoria na moral da equipe.
Outro exemplo é uma instituição financeira que, após realizar uma avaliação de riscos, implementou um programa de trabalho flexível. Os colaboradores relataram uma melhora significativa em sua qualidade de vida e na capacidade de balancear demandas pessoais e profissionais.
Esses casos demonstram que, quando as empresas se comprometem com a saúde mental de seus colaboradores, os impactos positivos se refletem em todos os níveis da organização, desde a produtividade até a retenção de talentos.
Desafios a serem enfrentados
Apesar dos avanços na discussão sobre saúde mental no trabalho, muitos desafios ainda persistem. Estigmas em torno de problemas de saúde mental podem impedir que funcionários busquem ajuda. Além disso, muitas empresas ainda veem a saúde mental como um custo, em vez de um investimento.
Para superar esses obstáculos, é fundamental promover uma cultura organizacional que valorize o bem-estar mental. Isso inclui a formação de líderes e gestores que sejam conscientes da importância da saúde mental e que se sintam preparados para lidar com esses assuntos de forma sensível.
O futuro da saúde mental no trabalho no Brasil
Com o adiamento da NR-1, as empresas têm até 2026 para se adaptar, mas o relógio está correndo. O significativo aumento nos afastamentos por transtornos mentais indica que a adoção de práticas saudáveis não é apenas uma opção, mas uma necessidade urgente.
Orgãos reguladores, especialistas em saúde ocupacional e as próprias empresas devem trabalhar juntos para promover um ambiente que priorize a saúde mental, não apenas para atender a novas normas, mas também para garantir um futuro mais saudável para os trabalhadores brasileiros.

