A Amazônia abriga 27% de seu território pertencente a mais de 410 grupos indígenas. Essas comunidades habitam a região há milhares de anos, mas são poucos os projetos de conservação que são liderados a partir da perspectiva desses povos. Um artigo publicado recentemente na revista Science, escrito por pesquisadores indígenas brasileiros, propõe novas abordagens para preservar a floresta amazônica.
Este artigo é uma colaboração entre representantes de vários povos do Alto Rio Negro, no Amazonas, como os Ʉtapinopona/Tuyuka, Yepamahsã/Tukano, Wa’î pino pona/Bará, Medzeniakonai/Baniwa e Sateré-Mawé. Os autores sugerem um novo olhar sobre como a ciência da preservação deve pautar-se pela sabedoria acumulada ao longo das milênias de tradição indígena.
A ciência ocidental negligenciou o conhecimento indígena por muito tempo. Apenas nos últimos 40 anos, os laços entre pesquisadores e povos originários começaram a se fortalecer, especialmente no que diz respeito à conservação. Estudos demonstram que os territórios indígenas preservam até um terço das terras naturais restantes, além de desempenharem um papel vital na proteção de espécies ameaçadas de extinção.
O artigo menciona o Painel Científico para a Amazônia (SPA), que envolve mais de 240 cientistas de 40 países e que realizou uma avaliação abrangente da região em colaboração com comunidades indígenas. Em alinhamento com a Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, o SPA estabeleceu estratégias que visam tornar a Amazônia ecologicamente sustentável, socialmente justa e culturalmente inclusiva.
Contudo, mesmo com abordagens que buscam ser mais inclusivas, ainda predomina uma visão utilitarista da natureza. A Amazônia enfrenta sérios desafios: cerca de 30% de sua madeira é explorada de maneira ilegal, colocando em risco o equilíbrio do ecossistema. “Estratégias de conservação que se baseiam em visões ocidentais, como a criação de áreas estritamente protegidas, costumam excluir ou deslocar os povos indígenas de seus territórios”, alertam os autores do artigo.
Quando a legislação de conservação impede o uso de locais ou espécies de importância cultural, cria uma “armadilha do conhecimento”, que limita o engajamento dos indígenas com suas terras e compromete a eficácia das estratégias de conservação a longo prazo.
Então, como unir o conhecimento indígena com as práticas de conservação? Os pesquisadores defendem que as práticas das comunidades estão profundamente ligadas aos ritmos da Terra, interagindo com três domínios que abrigam diferentes formas de vida: o aéreo (clima e constelações), o terrestre (solo e floresta) e o aquático. Esta visão holística reconhece que os humanos ocupam o domínio terrestre, desenvolvendo relações sociais e ecológicas com todos os elementos do ecossistema, incluindo os “outros-humanos”, que são divindades espirituais percebidas apenas por xamãs ou em sonhos.
A manutenção das relações interpessoais e ecológicas é fundamental para a saúde do sistema terrestre. Embora frequentemente vistos como estáticos, os ecossistemas amazônicos estão em constante transformação. Os povos indígenas desenvolvem inovações e práticas sustentáveis que garantem sua sobrevivência, como os caminhos utilizados em atividades cotidianas que correspondem aos trajetos de animais, vento e água.
Além disso, o manejo de florestas culturais, o uso da Terra Preta — um solo altamente fértil — e práticas como agroflorestas e diversificação de cultivos são exemplos de como os indígenas moldaram os ecossistemas amazônicos ao longo de milênios, muito antes de as abordagens convencionais de conservação serem reconhecidas.
“As comunidades científicas precisam estabelecer procedimentos para uma colaboração transdisciplinar e intercultural, integrando práticas e conhecimentos indígenas para aprimorar a pesquisa, políticas e ações de conservação”, ressaltam os autores.
Sobre como iniciar esse processo, os cientistas apresentaram três princípios indígenas fundamentais que podem ajudar a criar uma ponte entre conservação e restauração. O primeiro é o reconhecimento de que uma rede cosmopolítica envolve relações de parentesco, comunicação e troca entre humanos e outros seres do ecossistema. Essa interconexão implica que humanos, animais, plantas e elementos naturais são dependentes uns dos outros.
O segundo princípio enfatiza a importância de reconhecer as práticas indígenas e as restrições necessárias para manter essa rede em funcionamento. Por último, os cientistas sugerem que a compreensão de que as redes são circulares e seguem o ritmo da Terra é essencial. A integração desses princípios pode ajudar a mitigar problemas como o desmatamento e as queimadas que afetam a região.
“Os conhecimentos indígenas não são dogmáticos e merecem ser levados a sério na busca por um futuro sustentável”, concluem os autores. Ao adotá-los, pode-se promover uma colaboração efetiva entre os conhecimentos ocidentais e indígenas, resultando em novas questões, conceitos e métodos em conservação e restauração. Embora isso se aplique particularmente aos territórios indígenas, as teorias podem ser levadas para diversos contextos em busca da preservação dos ecossistemas.

