Pesquisa Nacional Descobre Fauna Marinha em Águas Profundas

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A Antártida é um dos locais que mais sofre com os impactos das mudanças climáticas. No continente gelado, o aquecimento do oceano e o derretimento de geleiras têm consequências graves para a ecologia das espécies. Por ser o continente mais isolado do planeta, a Antártica favorece as espécies endêmicas – ou seja, que só são encontradas lá.

As mudanças nas correntes oceânicas influenciam de diferentes formas a fauna local: enquanto algumas espécies já não conseguem sobreviver sob as novas condições, outras prosperam e se multiplicam. Algumas espécies forasteiras, ainda, se tornam invasoras. O vírus da gripe aviária, por exemplo, já foi detectado em aves e mamíferos antárticos.

Pesquisadores de todos os cantos do mundo se empenham em monitorar e compreender como essas mudanças estão ocorrendo. Muitas pesquisas ocorrem na Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base brasileira localizada na ilha antártica Rei George, na península mais próxima ao extremo sul da América do Sul.

A Enseada Martel, que abriga a base brasileira, perdeu cerca de 13% da cobertura de gelo entre 1979 e 2011. Suas águas são rasas, com cerca de 30 metros de profundidade. O derretimento das geleiras impacta diretamente e indiretamente várias espécies locais ao influenciar na taxa de salinização da água, perturbar ecossistemas com a movimentação dos icebergs e com a deposição de sedimentos ao redor das geleiras.

Entretanto, monitorar precisamente os impactos dessas mudanças é um desafio complexo: exige equipamentos avançados, colaboração de especialistas em diferentes áreas, investimento em pesquisa de ponta e expedições consistentes para o continente gelado. Além de tudo isso, é necessário ter dados com os quais se possa comparar. Por exemplo: só dá para saber que 13% do gelo da Enseada Martel já derreteu porque alguém mediu essa área anteriormente.

Esse mapeamento inicial é um dos trabalhos que o projeto BECOOL (sigla em inglês para Conexões Bentônicas em Altas Latitudes do Hemisfério Sul) desenvolve na região. Apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Marinha Brasileira e a Armada Chilena (o equivalente da marinha) e por universidades brasileiras, o projeto estuda os efeitos das mudanças climáticas na fauna do fundo do mar da Antártica e suas conexões com o continente sul-americano.

O biólogo André Calloni é mestrando da Universidade de São Paulo e viralizou nas redes sociais ao mostrar seu cotidiano durante a expedição de dois meses que realizou para a Antártida. O pesquisador utiliza drones subaquáticos que mergulham e filmam as bases das geleiras.

Depois, Calloni assiste horas de filmagem do fundo do mar para listar todas as espécies de animais que consegue identificar. O método é mais rápido em comparação à coleta de material do fundo do mar e permite identificar espécies maiores que poderiam passar despercebidas em outras situações. Os dados coletados são cruzados em uma análise de bioestatística que permite tirar conclusões sobre os fatores que influenciam as populações dos animais.

“É um processo trabalhosíssimo. Foi um ano assistindo horas e horas de vídeo do fundo do mar e planilhando tudo. Depois tem a parte de programação, bioestatística”, diz Calloni. Ele explica que um dos fatores mais marcantes na diferenciação das faunas é o local: se é uma geleira que termina em água, uma que termina em terra, ou se é uma área sem geleira.

A fauna se distribui de acordo com características como o tempo de reprodução dos organismos, a duração do ciclo de vida e a mobilidade de cada espécie. “A distribuição da fauna se dá em função dessas características, então a gente se preocupa que, com o aquecimento global, algumas espécies podem acabar sumindo”, explica o biólogo.

O pesquisador espera que os dados obtidos pela sua pesquisa sejam utilizados para compreender o impacto que o rompimento das geleiras teve no fundo do mar. Imagine o impacto de um bloco enorme de gelo que cai na água. Além de provocar ondas fortes, o iceberg também pode arranhar o solo, impactando diretamente a fauna do local, um processo chamado de ice scour.

Impactos das Mudanças Climáticas na Antártida e na Fauna Local

Um dos principais problemas enfrentados pela Antártida é o aquecimento global, que afeta o padrão das correntes marinhas. Com isso, várias espécies marinhas, como os krills e os peixes, precisam se adaptar rapidamente às novas condições, ou correm o risco de extinção. O krill, por exemplo, é uma espécie essencial para a cadeia alimentar antártica, servindo como alimento para focas, pinguins e baleias.

A diminuição do gelo marinho não apenas altera o habitat dessas espécies, mas também afeta a biodiversidade das regiões. As correntes alteradas tornam algumas áreas mais ricas em nutrientes, enquanto outras acabam se tornando desertas. Essa desigualdade afeta a dinâmica ecológica, favorecendo a proliferação de espécies invasoras que podem desequilibrar os ecossistemas locais.

Um exemplo claro disso é a invasão do molusco Mya arenaria e de algas não nativas, que têm sido observadas em algumas áreas. Esses organismos competem por recursos com as espécies nativas, colocando em risco a sobrevivência de várias delas. Além disso, as alterações nas comunidades de algas afetam diretamente o ciclo de carbono, uma vez que as algas desempenham um papel vital na absorção de CO2.

Essa nova realidade exige esforços intensificados em pesquisa e ações de conservação. Projetos como o BECOOL buscam cada vez mais entender as complexas interações entre a fauna e os seus habitats, especialmente em um ambiente tão frágil e mutável como o antártico.

Além disso, a colaboração internacional é fundamental. A Antártida é considerada um “continente científico”, onde não há soberania territorial, e a pesquisa requer uma resposta conjunta para mitigar os impactos das mudanças climáticas. A troca de dados entre pesquisadores de diferentes países, junto com programas de monitoramento a longo prazo, são essenciais para compreender como o ecossistema se adapta a essas transformações.

O futuro da fauna da Antártica depende de nossa capacidade de agir em conjunto e de implementar estratégias adequadas. Os dados coletados, como os que Calloni e sua equipe estão obtendo, oferecem insights valiosos, mas é crucial que essas informações sejam aplicadas em políticas de preservação e manejo sustentável. Devemos estar cientes de que as mudanças climáticas não são apenas um problema distante; elas têm efeitos diretos que podem reverberar ao longo de milhões de quilômetros e impactar diretamente a vida de muitos seres vivos.

Tendências Futuras e Ações Necessárias

O monitoramento contínuo das mudanças é vital para o entendimento dos impactos nas espécies da Antártida. As tecnologias de ponta utilizadas nas pesquisas atuais, incluindo drones subaquáticos e sensores remotos, estão melhorando a capacidade de observação das alterações ambientais. Isso potencializa a identificação de organismos e a avaliação da saúde dos ecossistemas da região.

É importante ressaltar que a educação e a conscientização sobre os problemas da Antártida são partes essenciais na luta contra as mudanças climáticas. Iniciativas científicas como as de Calloni demonstram não apenas a importância da pesquisa, mas também como a ciência pode ser comunicada ao público para gerar engajamento e mobilização em torno da conservação.

A interação entre a comunidade científica e a sociedade civil é fundamental para que as informações cheguem a um número maior de pessoas. Isso pode contribuir para um maior entendimento da necessidade de ações coletivas que visem a proteção do nosso planeta, especialmente em regiões tão vulneráveis quanto a Antártida.

Assim, enquanto o aquecimento global persiste, podemos fazer a diferença coletivamente, promovendo a preservação do ecossistema antártico e de suas fascinantes espécies.

FAQ: Impactos das Mudanças Climáticas na Antártida

  • Quais são os principais impactos das mudanças climáticas na Antártida?
    Os principais impactos incluem o derretimento das geleiras, alteração das correntes oceânicas e mudanças na biodiversidade, com espécies nativas sendo ameaçadas por invasores.
  • O que é ice scour?
    Ice scour se refere ao processo de arranhamento do fundo do mar causado pela movimentação de icebergs que caem na água, impactando o habitat marinho.
  • Como a pesquisa na Antártida é realizada?
    A pesquisa é realizada por meio de expedições científicas, que utilizam tecnologias como drones subaquáticos para monitorar a fauna e a saúde dos ecossistemas.
  • Qual a importância do krill no ecossistema antártico?
    O krill é uma espécie fundamental que serve de alimento para várias outras espécies, incluindo focas, pinguins e baleias, e desempenha um papel crucial na cadeia alimentar.
  • Como as espécies invasoras influenciam o ambiente antártico?
    Essas espécies podem competir com as nativas por recursos, alterando a dinâmica ecológica e ameaçando a sobrevivência das espécies endêmicas.
  • Por que a colaboração internacional é essencial na pesquisa antártica?
    Porque a Antártida não pertence a um único país, as pesquisas colaborativas permitem uma melhor compreensão das mudanças globais e promovem ações coordenadas para a conservação.
  • Qual o papel das organizações científicas na Antártida?
    As organizações científicas conduzem pesquisas, promovem a troca de dados e ajudam a formular políticas de conservação baseadas em evidências científicas.
  • Quais tecnologias estão sendo utilizadas nas pesquisas na Antártida?
    Drones subaquáticos, sensores remotos e técnicas avançadas de bioestatística são algumas das tecnologias utilizadas para monitorar e estudar a fauna e flora antárticas.

A Antártida em um Cruceiro Do Tempo

A Antártida enfrenta um desafio sem precedentes em sua história, sendo um microcosmo das dificuldades que o planeta enfrenta. As investigações contínuas e as inovações tecnológicas são ferramentas cruciais para garantir que, no que depender de nós, o continente gelado continue a ser um bastião da biodiversidade e um símbolo de esperança para o futuro sustentável da Terra.

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