Harmonia entre Conhecimento Científico e Tradições Ancestrais

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A restauração de ecossistemas se tornou uma meta global crucial, estabelecida por iniciativas da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Esta campanha global busca valorizar e fomentar todos os esforços que visam recuperar ambientes naturais, trazendo benefícios não apenas para os ecossistemas, mas também para a humanidade como um todo.

Uma das iniciativas que ganhou destaque nesse contexto é a Rede de Sementes e Mudas da Bacia do Rio Doce, que se compromete a ampliar a cobertura florestal da Mata Atlântica. O trabalho dessa rede envolve ações de pesquisa e tecnologia, promovendo inovações na produção de sementes florestais nativas, essenciais para a recuperação da biodiversidade.

Esse trabalho vem sendo conduzido pela Fundação Renova, criada após o rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG), em 2015. Desde então, foram destinados aproximadamente R$ 38 bilhões em programas de reparação, incluindo indenizações para cerca de 430 mil pessoas afetadas pela tragédia. Com a assinatura do Novo Acordo da Bacia do Rio Doce em outubro de 2024, a mineradora Samarco, responsável pelo desastre, em parceria com suas acionistas Vale e BHP Brasil, assume a liderança desta iniciativa, prometendo a entrega de uma série de ações voltadas para a recuperação ambiental.

As ações de reflorestamento têm como principal objetivo alcançar a reabilitação ambiental da Bacia do Rio Doce. Até o momento, foram usados R$ 11,6 milhões para ajudar produtores rurais a recuperar áreas de proteção permanente em suas propriedades, além de R$ 10 milhões destinados à aquisição de sementes. O Novo Acordo prevê ainda mais R$ 16,13 bilhões em ações voltadas ao meio ambiente, ampliando os investimentos em áreas vitais para a natureza.

A Importância das Comunidades Indígenas e Quilombolas

“Temos 54 mil hectares para reabilitar, com o suporte da rede, que disponibiliza mudas e sementes, em alinhamento com o programa da ONU sobre a década da Restauração de Ecossistemas,” afirma Antônio Sergio Cardoso Filho, engenheiro florestal e coordenador da iniciativa. Essa ação não apenas busca a recuperação ambiental, mas também promove benefícios sociais, oferecendo novas oportunidades de renda para pequenos produtores e para comunidades indígenas e quilombolas, muitas delas lideradas por mulheres.

Os produtores que participam do projeto recebem capacitação anual. Há atualmente 51 núcleos ativos em toda a Bacia do Rio Doce, que já coletaram mais de 80 toneladas de sementes, provenientes de cerca de 350 espécies florestais nativas da Mata Atlântica. Flavia Osório José, engenheira florestal envolvida no projeto há dois anos, destaca o compromisso com a capacitação e o fortalecimento das comunidades locais.

“O objetivo é que a rede de coleta se torne independente da Fundação Renova e da Samarco, permitindo que os produtores se tornem especialistas em um mercado de reflorestamento que está em expansão. Com o tempo, eles começaram a perceber as vantagens de conservar a floresta em pé,” relata Monique Alves, agrônoma que se juntou à Rede de Sementes e Mudas em 2022.

Essa vasta base teórica da iniciativa é resultado de uma parceria entre a Fundação Renova e o Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), com a colaboração da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os pesquisadores oferecem suporte técnico e científico, enquanto as comunidades locais compartilham seus conhecimentos tradicionais, transmitidos por gerações.

Avanços na Produção e Pesquisa

As mudas para reflorestamento são cultivadas em 11 viveiros familiares, distribuídos entre Minas Gerais e Espírito Santo. “Temos capacidade para produzir até 13 milhões de mudas anualmente,” informa Ana Caroline de Oliveira Herculano, engenheira florestal apoiando o projeto há dois anos e meio. Esse esforço não só auxilia a recuperação da vegetação nativa, mas também fortalece a rede de produção local.

A experiência adquirida com a produção de sementes e mudas traz benefícios significativos também para a pesquisa científica. Kamila Antunes Alves, engenheira agrônoma responsável pelo laboratório da análise de sementes, revela que “o controle de qualidade começa no campo e se estende até a Casa das Sementes, onde as sementes são armazenadas, e por um laboratório que avalia sua qualidade sob diversos aspectos, como genético, físico, fisiológico e sanitário.” Essa abordagem cuidadosa garante altos padrões de qualidade para as sementes produzidas.

“A maior parte dos dados que geramos é inédita, sem referências anteriores na literatura científica. Estamos não apenas praticando a restauração, mas também produzindo conhecimento valioso para todo o setor de reflorestamento,” acrescenta Kamila. Esse comprometimento com a pesquisa e inovação contribui para o avanço das técnicas de reflorestamento e preservação ambiental.

Dessa maneira, a Rede de Sementes e Mudas da Bacia do Rio Doce se destaca não só como um esforço de recuperação ambiental, mas como um modelo de colaboração entre ciência, comunidade e inovação, promovendo um futuro mais sustentável para as próximas gerações.

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