Impacto da Baixa Escolaridade na Saúde e Bem-Estar

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Nos últimos anos, o foco da pesquisa sobre declínio cognitivo, um dos principais aspectos relacionados à demência, tem se ampliado para além dos fatores tradicionais, como idade e sexo. Um estudo recente, liderado por cientistas brasileiros, sugere que esses fatores podem variar significativamente dependendo de aspectos socioeconômicos. Essa descoberta é vital para entender como a realidade local pode influenciar a saúde mental da população.

De acordo com a pesquisa realizada por Eduardo Zimmer, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Instituto Serrapilheira, a baixa escolaridade se destaca como o principal fator de risco para o declínio cognitivo no Brasil. O estudo, que envolveu colaborações entre Brasil e Argentina, foi publicado no periódico The Lancet Global Health e enfatiza a necessidade de políticas públicas voltadas para a educação infantil como forma eficaz de prevenir esse problema.

Desvendando o Declínio Cognitivo

A demência é uma condição que envolve uma gama de sintomas que impactam negativamente a função cerebral e a vida diária das pessoas. A literatura científica convencional aponta que os principais fatores de risco para demência são, sem dúvida, a idade e o sexo. As mulheres têm uma propensão maior a desenvolver essas condições, e o risco aumenta conforme a idade avança. No entanto, essa visão é um tanto limitada.

Um aspecto crucial que emerge dessa pesquisa é que a literatura científica sobre demência tem, em grande parte, uma origem geográfica restrita, com muitos estudos realizados em países do Norte Global. Isso leva a uma generalização que pode ser enganosa em contextos onde as desigualdades sociais são mais pronunciadas, como no Brasil.

Zimmer ressalta que a complexidade da saúde cerebral brasileira não pode ser reduzida às conclusões obtidas em outros países. Ele elucida que a desigualdade existente no Brasil tem um impacto profundo na saúde mental da população, e os dados colhidos em sua pesquisa revelaram informações surpreendentes e, muitas vezes, opostas ao esperado.

Inteligência Artificial a Serviço da Pesquisa

A pesquisa contou com a contribuição do neurocientista argentino Agustín Ibañez, que se destacou na investigação de como fatores sociodemográficos afetam a saúde cerebral em diversos países do Sul Global. A utilização de um algoritmo de aprendizado de máquina permitiu analisar dados e identificar padrões que não eram visíveis à primeira vista.

Essa inteligência artificial foi projetada para processar dados sem preconceitos, usando informações coletadas de aproximadamente 41 mil indivíduos em países da América Latina, como Brasil, Colômbia e Equador. Para o Brasil, foram analisados 9.412 participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Fundação Oswaldo Cruz – Minas Gerais (Fiocruz-MG).

Os resultados mostraram que a baixa escolaridade não apenas se destaca, mas é claramente o fator de risco mais significativo para o declínio cognitivo no Brasil, superando questões como saúde mental, hábitos de atividade física e presença de doenças cardiovasculares. Embora idade e sexo ainda estejam presentes nas variáveis, sua influência é muito mais reduzida.

A Importância da Educação na Saúde Cognitiva

A realidade educacional brasileira se revela alarmante. Em um país onde a educação é um direito constitucional, o acesso ainda é desigual. Em 2023, 24% dos jovens de 15 a 17 anos estavam fora da escola. Além disso, o Brasil abriga cerca de 10 milhões de analfabetos, dos quais 55% estão concentrados no Nordeste, uma região historicamente carente em termos de acesso à educação.

A educação não apenas enriquece o conhecimento, mas também propicia o desenvolvimento de uma reserva cognitiva. Por exemplo, a habilidade de resolver problemas matemáticos pode ser aprimorada de várias maneiras, dependendo das experiências educativas de cada indivíduo. Aqueles com melhor formação educacional estão mais bem equipados para traçar diferentes caminhos de pensamento, tornando-se mais resilientes aos declínios cognitivos.

“Uma maneira de prevenir o declínio cognitivo em idosos é investindo na educação no início da vida”, afirma Zimmer. O investimento na educação infantil é uma prioridade urgente para o Brasil, considerando que a desigualdade existente traz consequências para a saúde não apenas financeiras, mas também cognitivas.

Atualmente, o Brasil enfrenta aproximadamente 2,71 milhões de casos de demência, um número que deve alcançar 5,6 milhões até 2050. Estabelecer um combate eficaz a esse grande desafio passa necessariamente pela educação. A equipe de pesquisa liderada por Zimmer manifesta interesse em investigar se a educação continuada pode também oferecer proteção e resiliência cerebral, avocando a importância do aprendizado ao longo da vida.

Reflexões sobre o Futuro da Saúde Mental

É evidente que enquanto o Brasil busca entender melhor a relação entre educação e saúde cognitiva, surge um chamado para transformar as abordagens científicas e compreender os impactos das desigualdades sociais. O que os dados nos dizem é que uma política voltada para a educação não é apenas uma meta, mas uma verdadeira necessidade; uma ação prioritária para garantir um futuro melhor para a saúde mental da população.

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